Portugal é o segundo país europeu onde os novos medicamentos demoram mais tempo a chegar ao mercado, segundo um relatório internacional que revela que os portugueses têm de esperar mais de dois anos por novos fármacos.
Esta é uma das conclusões do relatório da Federação Europeia das Indústrias e Associações Farmacêuticas (EFPIA), que aponta para “um cenário de desigualdade crescente” no acesso e disponibilidade de medicamentos inovadores na Europa.
Os investigadores quiseram perceber quanto tempo demora uma nova terapia a ficar disponível e para isso olharam para 168 fármacos que receberam autorização de comercialização entre 2021 e 2024.
Em média, estes medicamentos demoraram 532 dias a chegar ao mercado, mas existem grandes disparidades entre países: os alemães tiveram de esperar apenas 56 dias, enquanto os romenos aguardaram 1.201 dias, ou seja, mais de três anos e quatro meses.
Neste ‘ranking’, que compara 36 países, Portugal surge em penúltimo lugar, com um tempo médio de espera de 784 dias entre a autorização de introdução no mercado e a data de disponibilização aos doentes.
Entre os que esperam menos tempo estão, depois dos alemães, os suíços (212 dias), sérvios (235), austríacos (259), dinamarqueses (268) e ingleses (282).
Já no fim da tabela, ligeiramente melhores do que os romenos e os portugueses, estão os lituanos, que têm de esperar em média 783 dias, os croatas (666 dias) e os polacos (655).
Os investigadores foram ver também quantos medicamentos aprovados continuavam sem chegar ao mercado e perceberam que era a maioria: Das 168 novas terapias, apenas 76 estavam disponíveis no início deste ano (45%).
Neste campo, Portugal destaca-se pela positiva, com 89 medicamentos disponíveis (53%), ficando em 12.º lugar do ‘ranking’ novamente liderado pela Alemanha, que em janeiro deste ano já tinha 93% dos fármacos no mercado.
Depois da Alemanha, surge a Áustria (85%) , Itália (79%), Suíça (76%) e Espanha (69%).
No fim da tabela, aparecem Malta, com apenas 22 medicamentos disponíveis, Sérvia (17 fármacos) e Turquia (apenas nove).
Os investigadores sublinham que existe uma “disparidade de acesso de 88% entre o país europeu com melhor acesso e o com pior acesso”.
O estudo mostra ainda que a situação está a agravar-se e, hoje, há maiores desigualdades entre os estados-membros, os pacientes europeus esperam mais tempo e há maiores restrições.
Antes, a disponibilidade total dos novos medicamentos era a principal forma de acesso, mas agora há cada vez mais restrições, alertam os investigadores.
A percentagem de medicamentos totalmente disponíveis nas listas públicas de reembolso caiu a pique nos últimos anos: Eram 42% em 2019 e agora são 28%.
A Alemanha volta a ser o país que apresenta melhores condições, com 93% dos medicamentos totalmente disponíveis, por oposição à Turquia, onde os pacientes têm acesso apenas a 5% dos fármacos. Em Portugal o valor é de 28%, igual à média europeia.
Os investigadores apontam várias causas para a indisponibilidade e atraso no acesso a novos medicamentos, desde a lentidão dos processos regulatórios, ao desalinhamento nos requisitos de evidência e orçamentos insuficientes nos Estados-Membros.
No estudo, a EFPIA defende mais investimento nos novos medicamentos e que os pacientes possam ter acesso aos novos tratamentos “enquanto decorrem os processos nacionais de avaliação de valor terapêutico e de reembolso, dentro de um prazo acordado de 180 dias”.
A diretora geral da EFPIA, Nathalie Moll, alerta para o facto de a Europa enfrentar “problemas de acesso a medicamentos há 25 anos”, estimando que as reformas globais de preços agravem a situação.
“É irrealista esperar maior investimento na Europa e acesso mais rápido a novos tratamentos para os europeus se os Estados-Membros continuarem também a exigir os preços mais baixos possíveis e as mais elevadas taxas de devolução ao Estado. Precisamos de fazer uma escolha”, acrescentou.