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Assédio e seus impactos em debate nos Hospitais da Universidade de Coimbra

Lusa
06-05-2026 17:43h

Especialistas de diferentes áreas estão hoje reunidos no Centro de Congressos dos Hospitais da Universidade de Coimbra numa conferência que visa analisar os impactos do assédio na dignidade, na segurança e na saúde.

A conferência “Assédio: Consensos e Controvérsias – Dignidade, Segurança e Saúde”, que decorre durante a tarde, é promovida pela Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra, em conjunto com a Women in Global Health Portugal (WGH Portugal) e a Universidade de Coimbra (UC).

No decorrer do evento, será abordado um tema que é “insuficientemente discutido em Portugal, apesar da sua relevância sistémica”, nomeadamente “o discurso de ódio sobre as mulheres, o assédio laboral, o assédio moral e sexual em contexto pessoal, profissional e académico”, bem como “os seus impactos, por vezes devastadores, na saúde mental”, afirmou, na sessão de abertura, Diana Vilela Breda, uma das fundadoras da WGH Portugal.

“O assédio não é um desvio pontual. É frequentemente um sintoma de culturas organizacionais permissivas, de hierarquias rígidas e de mecanismos frágeis de responsabilização”, apontou.

De acordo com Diana Breda, entre os impactos, está a “degradação do ambiente de trabalho, aumento do ‘burnout’, abandono profissional e até efeitos indiretos, no caso das instituições de saúde, na qualidade dos serviços prestados”.

A evidência de que o assédio se associa a pior saúde mental configura, assim, “um risco de saúde pública, com custos individuais e organizacionais muito pesados”.

“O assédio e a violência afetam de forma desproporcionada as mulheres”, que são, por exemplo, “as principais vítimas do assédio sexual no local de trabalho”, sublinhou.

Os dados trazidos por Diana Breda revelam ainda que “quase um em cada três trabalhadores em Portugal sofreu assédio laboral” e que “metade das vítimas nunca denunciam”.

Apesar de ter sido registado um aumento de denúncias, “por exemplo, em 2020, de 166%”, este ainda é um problema “muito subnotificado”.

“As pessoas não denunciam porque têm medo da retaliação, porque têm dependência económica e porque não acreditam nos mecanismos de denúncia”, explicou.

“Mas estes números, como todos os números, não são abstrações: são profissionais, são estudantes, são investigadores, médicos, enfermeiros, técnicos, assistentes operacionais, assistentes técnicos, são pessoas que sustentam diariamente os serviços de saúde. Não pode haver excelência em saúde sem ambientes seguros”.

A sessão de abertura contou também com intervenção do presidente do conselho de administração da ULS de Coimbra, Francisco Maio Matos, que ressaltou o intuito de a atividade ser o início de um debate permanente, que permita “criar um sinal de alerta e de construção de um nivelamento e um estado de maturação social que pretendemos para a comunidade”.

Francisco Maio Matos destacou ainda as ações desenvolvidas pela ULS de Coimbra para criar “um ambiente de transparência”, não apenas “para reforçar o conhecimento, mas também para alinhar práticas e consolidar uma cultura de tolerância zero face ao assédio”.

“Mas mais do que ao assédio, a qualquer comportamento que seja desviante de uma conduta profissional, dentro daquilo que será alinhado com os maiores ‘standards’ de comportamento profissional”.

A provedora do estudante da UC, Cristina Vieira, em representação do reitor da UC, destacou a importância da iniciativa, apontando ainda que a UC “está comprometida com a promoção de valores de cidadania e dos valores fundacionais da instituição”, de liberdade, respeito mútuo, tolerância e solidariedade, entre outros.

A conferência inclui dois painéis temáticos - um dedicado ao impacto da exposição ao discurso de ódio na saúde mental e outro focado no assédio em contexto laboral.

No final, haverá uma síntese dos debates, a assunção de compromissos por parte da WGH Portugal e um momento de ‘networking’.

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