A doença crónica está a crescer em Portugal e a surgir cada vez mais cedo, evoluindo para formas mais complexas, conclui uma investigação hoje divulgada, que aponta para um “impacto desproporcional” nos mais desfavorecidos
Desenvolvida pelos investigadores da Nova SBE Carolina Santos e Pedro Pita Barros, detentor da Cátedra BPI | Fundação”la Caixa” em Economia da Saúde, a análise revela que a probabilidade de uma pessoa com maiores dificuldades económicas sofrer de doença crónica quase duplicou em oito anos, passando de 26% (2017) para 49% (2025).
O aumento da doença crónica resulta sobretudo (71%) de um agravamento da carga de doença dentro dos próprios grupos etários, e não apenas do envelhecimento da população, que explica só 29% do aumento da prevalência de doentes crónicos.
A prevalência de doentes crónicos é mais elevada nos grupos mais idosos (subida de 14 pontos percentuais no grupo 65-79 anos), mas os investigadores apontam para um “crescimento significativo” também entre os mais jovens: mais oito pontos percentuais nos grupos 15–29 anos e 45–64 anos.
Neste trabalho, que teve como base os dados de um inquérito a mais de 8.600 pessoas, os investigadores concluíram que, entre 2017 e 2025, a prevalência de doença crónica aumentou de 28% para 36% e a multimorbilidade (duas ou mais doenças crónicas) atingiu os 19%, subindo 10 pontos percentuais.
Os resultados apontam para uma “expansão da morbilidade ao longo de todo o ciclo de vida adulto”.
Esta evolução - referem os investigadores - indicia que a doença crónica não só surge cada vez mais cedo, como também “evolui para formas mais complexas e que se acumulam ao longo da vida”, exigindo “respostas mais integradas e continuadas” por parte do sistema de saúde.
Este crescimento da prevalência de doença crónica ao longo do ciclo de vida adulto, bem como um “aumento acentuado da multimorbilidade”, traduz-se em “perfis clínicos progressivamente mais complexos”, com mais condições crónicas acumuladas e maior necessidade de um acompanhamento contínuo, integrado e centrado no doente.
Os investigadores apontam ainda para a necessidade de reforçar as políticas públicas que não só respondam aos desafios do envelhecimento, como também travem o agravamento das desigualdades em saúde.
Nas prioridades, destacam o reforço na prevenção – com maior alcance nas populações mais vulneráveis -, o desenvolvimento de modelos integrados de gestão da doença (que acompanhem o doente nos vários níveis de cuidados) e a redução das barreiras no acesso aos cuidados, nomeadamente a medicação e aos Cuidados de Saúde Primários.
Atendendo à situação económica, a análise revela que a probabilidade de uma pessoa com maiores dificuldades económicas sofrer de doença crónica quase duplicou.
Comparando com pessoas dos escalões socioeconómicos mais favorecidos, quem enfrenta maiores privações económicas tinha em 2025 uma probabilidade 23,5 pontos percentuais superior de ser doente crónico.
Este agravamento é ainda mais evidente quando analisada a multimorbilidade: a diferença entre grupos socioeconómicos aumentou de quatro pontos percentuais (2017) para 27 pontos percentuais (2025), com os investigadores a apontarem “um risco crescente de desigualdade cumulativa”.
“Os grupos com maior carga de doença são também os que enfrentam maiores dificuldades no acesso a cuidados de saúde”, referem.