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ONG alertam para persistência da mutilação genital feminina

Lusa
06-02-2026 10:53h

No Dia Mundial da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, que se assinala hoje, várias Organizações Não-Governamentais (ONG) alertam para a persistência da prática, que afeta 230 milhões de meninas e mulheres em todo o mundo.

"Pôr fim à mutilação genital feminina requer um compromisso sustentado com a educação, os direitos humanos e a dignidade das meninas em todos os contextos", refere Irene Sánchez Prieto, responsável do programa 'A luz das meninas', projeto da Entreculturas, ONG que atua através de parcerias em 20 países de África e América Latina, incluindo zonas afetadas por crises humanitárias e deslocações forçadas.

Um desses países é o Chade, onde 34% das mulheres entre os 15 e os 49 anos foram submetidas a mutilação genital, de acordo com dados da Unicef.

Segundo a Entreculturas, que trabalha no Chade com a ONG JRS, o grande objetivo do seu trabalho é gerar mudanças duradouras nas comunidades.

"A prevenção só é eficaz quando existe um trabalho comunitário contínuo, uma consolidação dos referenciais locais e um envolvimento de toda a comunidade", disse Maimouna Konaté, diretora de projetos do JRS na região do lago Chade.

Uma abordagem que, acrescenta, "já se está a refletir na diminuição destas práticas na zona onde trabalhamos".

Longaye, sublinhou, ainda, a importância de existirem espaços seguros, onde se possa realizar um acompanhamento psicossocial contínuo de quem sofreu esta violência.

Estes processos de sensibilização, segundo Longaye, "permitem que as meninas e mulheres recuperem a confiança, expressem o que vivenciaram e fortaleçam a sua resiliência", ao mesmo tempo que se reduz o risco de que a prática continue a reproduzir-se.

No campo da saúde, María del Carmen Gutiérrez Vélez, especialista em Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Universitário 12 de Outubro, em Madrid, Espanha, refere que esta prática constitui uma forma grave de violência do ponto de vista médico e dos direitos humanos, uma vez que "é um procedimento lesivo que não tem fins médicos, procura causar dano intencional e tem múltiplas consequências tanto físicas como psicológicas que podem prolongar-se durante anos".

Neste sentido, a especialista enfatizou que a erradicação desta prática continua a ser complexa se não se atuar a partir da consciencialização social.

"A formação nos âmbitos de saúde, educação e serviços sociais é fundamental para identificar mulheres e meninas que sofreram esta prática e sensibilizar sobre os seus efeitos prejudiciais, com o objetivo de erradicar a sua prática nos países de origem", recordou.

Por sua vez, segundo a Unicef Espanha, a mutilação genital é "uma das formas mais graves de violência contra as meninas" e advertiu que, para alcançar a meta de erradicação em 2030, a redução desta prática deveria avançar "27 vezes mais rápido" do que atualmente.

Embora nas últimas décadas tenham sido feitos progressos, incluindo uma diminuição progressiva do risco de mutilação genital feminina para as raparigas nos países mais afetados — de 47% em 1993 para 33% em 2023 —, a Unicef Espanha alerta que "o progresso continua a ser frágil e desigual, e corre o risco de estagnar ou reverter-se se não se mantiver o compromisso político e financeiro".

Nesta mesma linha, destacou que "a inação tem consequências".

"Sem um financiamento sustentado, milhões de raparigas perderão tanto a proteção como a esperança", refere a Unicef, instituição para quem este investimento não é apenas um imperativo moral. "Cada dólar investido pode gerar um retorno estimado de 10 dólares enquanto o custo de tratar as complicações de saúde associadas a esta prática "continua a aumentar para os sistemas de saúde", conclui.

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