A Unidade Local de Saúde (ULS) de Santa Maria, em Lisboa, está pronta para começar um dos projetos-piloto do rastreio do cancro do pulmão anunciados pelo Governo, tem já 3.500 utentes identificados e capacidade para fazer 30 exames/semana.
Em declarações à Lusa dias antes da cerimónia que assinala o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, na quarta-feira, Cristina Bárbara, diretora de Departamento do Tórax da ULS Santa Maria, explicou que a unidade está pronta para este rastreio, que ainda precisa da luz verde para financiamento.
“Estamos prontos para iniciar já este mês”, disse a responsável, explicando os diversos passos que a unidade teve de dar, desde 2024, para cumprir todos os critérios necessários para poder ter um projeto-piloto de rastreio ao cancro do pulmão, o que mais mata na Europa.
O rastreio será feito com TAC (Tomografia Axial Computorizada) de baixa dose – submetendo as pessoas a baixa radiação – e a unidade terá capacidade para fazer 30 por semana, sendo os utentes chamados em “vários rounds” e tudo será feito em atividade fora do horário normal de trabalho.
Cristina Bárbara sublinhou a importância do rastreio do cancro do pulmão, lembrando que com os TAC de baixa dose acaba por se encontrar “achados” que podem indiciar outros problemas e, desta forma, serem vistos pelos médicos especialistas e tratados antecipadamente.
Disse ainda que estes rastreios, ao permitirem detetar a doença em estadios iniciais, possibilitam o tratamento cirúrgico.
“Desta forma, consegue reduzir-se a mortalidade, não só de cancro do pulmão, mas de outros cancros”, explicou a especialista, acrescentando que em todo o percurso do programa de rastreio é oferecida ao utente a possibilidade de consulta antitabágica.
A especialista lembrou o estigma que existe entre os fumadores e esclareceu: “Frequentemente, o fumador culpabiliza-se e não é isso que queremos. Queremos que deixe de fumar e, sobretudo, que tenha possibilidade de identificar o crescimento de uma neoplasia numa fase em que é passível de tratamento curativo”.
O rastreio nesta unidade abrangerá apenas utentes da ULS Santa Maria, que poderão ser enviados pelos cuidados de saúde primários, identificados pelos processos eletrónicos - que têm informação sobre os hábitos tabágicos – e depois convidados por carta ou ainda ser propostos pelos pneumologistas da ULS.
Para sublinhar a eficácia e importância deste rastreio, Cristina Bárbara lembrou que, segundo a literatura internacional, é preciso rastrear entre 100 a 150 pessoas para evitar uma morte por cancro de pulmão, números que sobem para entre 400 e 500 no cancro do cólon e para 700 a 1.700 no cancro da mama.
“O que significa que é altamente rentável”, acrescentou, lembrando que a deteção precoce, através do rastreio, permite uma redução da mortalidade entre 20 a 25%.
A ULS integra o consórcio europeu EUCanScreen, cujo objetivo principal é assegurar um elevado desempenho dos programas de rastreio do cancro em todos os Estados-Membros da União europeia.
Além desta ULS, também a de Santo António (Porto) faz parte deste consórcio e integra o grupo de projetos-piloto dos rastreios de cancro do pulmão. Cascais é outra das unidades onde está previsto arrancar um projeto-piloto.
Em paralelo, explicou, terá de ser criada uma plataforma para registo de dados, que já existe para os outros rastreios oncológicos em Portugal, mas não para os novos rastreios anunciados: pulmão, próstata e estômago.
De acordo com a norma da Direção-Geral da Saúde, os rastreios do cancro do pulmão abrangem pessoas entre os 55 e os 74 anos, fumadores e ex-fumadores que tenham, por exemplo, fumado um maço de tabaco/dia durante 20 anos.
O cancro do pulmão é o quarto tumor maligno mais comum em Portugal, sendo detetados anualmente cerca de 5.000 mil novos casos e morrem cerca de 4.000 pessoas vítimas desta doença. Fumar é o principal fator de risco.