Uma banda composta por 15 músicos que estão no espetro do autismo contribui para desenvolver a sua autonomia e o controlo das suas dificuldades, enquanto ajuda a desmistificar o autismo e a sensibilizar a sociedade para o problema.
Criada pela Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo de Lisboa, a banda "The Ziguais" já ajudou quase 25 músicos com necessidades de apoio, disse em entrevista à Lusa a responsável de comunicação do projeto.
Os membros têm idades entre os 20 e os 50 anos, referiu Maria João Morgado, a propósito do dia mundial da consciencialização sobre o autismo que hoje se assinala.
A terapeuta da fala Maria João Morgado disse que a banda ajuda a regular as alterações sensoriais (perturbações nos sentidos humanos) dos músicos, nomeadamente a hipersensibilidade, como é o caso da baterista da banda Catarina Loureiro, que tem uma hipersensibilidade “gigante ao som”.
“A Catarina fica muito incomodada com o som, como por exemplo cães a ladrar e a campainha da escola”, explicou a especialista, contando que a artista teve de sair da escola por não aguentar o barulho da campainha.
Catarina Loureiro admitiu à Lusa que às vezes passa por momentos difíceis, mas estar na banda ajudou-a a superar as dificuldades.
“Sinto-me alegre e orgulhosa comigo mesma, sinto-me uma verdadeira estrela”, admitiu Catarina Loureiro.
Maria João Morgado disse que a baterista consegue focar-se na atividade, isolando-se de "estímulos que emocionalmente são difíceis de suportar".
A especialista indicou que é possível ver uma evolução na autonomia dos músicos: há três anos ir a um concerto com o grupo "era muito difícil", por ser complicado gerir o comportamento dos artistas, mas atualmente “já vão orientados” e “de forma muito mais autónoma” para o local do espetáculo.
O professor de música da banda Rui Pais disse à Lusa que nos concertos não parece que os artistas estão espetro de autismo e que a música proporciona um momento agradável para os membros.
Rui Pais descreve o processo de aprendizagem inicial como difícil, mas natural, através do aproveitamento e desenvolvimento das capacidades, como a estruturação rítmica e melódica.
O guitarrista acrescentou que ao longo do tempo as habilidades evoluíram, assim como compreensão da linguagem verbal, isto é, o entendimento daquilo que o professor diz e que a aprendizagem é feita sobretudo através da imitação.
O professor apontou ainda que há sessões personalizadas em que ajuda os músicos a desenvolverem capacidades inatas como o ritmo ou o canto.
Os ensaios semanais duram uma hora e os artistas tocam baixo, bateria, instrumentos de percussão e cantam.
Maria João Morgado disse que o projeto surgiu em 2002, como uma ocupação para os pacientes da associação, mas só em 2020 se transformou numa banda profissional, quando se tornou uma das instituições vencedoras do Prémio BPI “la Caixa”.
A seguir ao prémio, que apoia financeiramente os projetos que promovem a melhoria da qualidade de vida e a igualdade de oportunidades de pessoas em situação de vulnerabilidade social, a banda ficou denominada de “The Ziguais”, indicou a responsável.
A banda fazia concertos direcionados para as pessoas com deficiências, mas depois do prémio, a associação viu potencial no projeto para ser reconhecido de outra forma e “abrir um leque de sítios onde eles pudessem ir tocar”.
Atualmente, a banda também faz concertos exteriores ao âmbito da deficiência, já tocou em Espanha e na Alemanha e faz concertos em escolas, em empresas e em eventos corporativos, apontou a terapeuta.
Para Maria João Morgado, os concertos da banda são um motor de sensibilização e de consciencialização sobre o espetro de autismo.