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“São traficantes de droga, não são médicos”, diz estrela da minissérie “Dopesick”

LUSA
11-11-2021 11:12h

O ator Peter Sarsgaard, que encarna o procurador da vida real Rick Mountcastle na nova série “Dopesick”, espera que a história sobre como surgiu a crise dos opiáceos na América faça os espectadores exigirem medidas.

“Espero que a audiência que vai ver a série exija que os seus governos protejam os cidadãos e não deem prioridade aos interesses corporativos em detrimento dos interesses dos indivíduos, que é algo que penso que está a acontecer não apenas nos Estados Unidos, mas um pouco por todo o mundo”, disse o ator em entrevista à Lusa.

“Dopesick” estreia-se em Portugal na sexta-feira, no Disney+, e tem também no elenco Michael Keaton, Rosario Dawson, Will Poulter, Michael Stuhlbarg e Kaitlyn Dever. Criada por Danny Strong, conta a história verdadeira da Purdue Pharma e da droga OxyContin, que deixou milhões de pessoas viciadas e desencadeou a crise dos opiáceos nos Estados Unidos.

“Médicos que têm uma clínica da dor e tudo o que fazem é passar a receita desta droga, abrem a porta, veem uma fila enorme e vendem a droga”, disse Peter Sarsgaard, descrevendo o que aconteceu quando o OxyContin, altamente viciante, foi receitado para dor moderada a severa. “São traficantes de droga, não são médicos”, criticou.

O ator frisou que histórias como esta “preparam o terreno” para movimentos como o dos anti-vacinas, apesar de ressalvar que as vacinas são coisas “completamente diferentes”, cuja premissa é proteger os cidadãos.

“Estas pessoas estão ali só para fazer dinheiro, a promoverem esta droga que é tão antiga quanto a humanidade. Desde sempre sabemos que os opiáceos fazem isto”, sublinhou.

O OxyContin, cujo ingrediente ativo é o oxicodona, foi aprovado pela entidade reguladora FDA com um rótulo especial, sob a premissa de que um sistema inovador de absorção retardada reduzia o potencial de abuso e a adição era “muito rara” se a droga fosse usada de forma legítima para a gestão da dor. O responsável de revisão médica que recomendou a aprovação, Curtis Wright, acabou a trabalhar na empresa poucos anos mais tarde.

“Surpreendeu-me a forma como pessoas que trabalhavam para a FDA acabaram a trabalhar para a farmacêutica, ou cientistas que estavam de um lado e foram parar ao outro”, disse Peter Sarsgaard. “Uma empresa como a Purdue Pharma tem bolsos muito fundos e é difícil resistir à tentação”.

Sarsgaard interpreta Rick Mountcastle, um dos procuradores que lançaram a investigação à Purdue Pharma em 2002 e autor principal do memorando de acusação sobre a farmacêutica.

“Não me pareço nada com ele e não partilhamos muitas características, mas quando o escritor sabe muito sobre a pessoa e escreve essas qualidades no argumento, nota-se”, disse Sarsgaard.

Antes de interpretar Mountcastle, o ator já estava familiarizado com a crise dos opiáceos, tendo pessoas próximas que foram vítimas de problemas similares. Contar esta história no pequeno ecrã tornou-se importante para ele.

“Todos temos estas histórias sobre como as máquinas vão tomar o controlo no futuro, e este é um futuro em que as corporações tomaram o controlo”, referiu. “Até as pessoas que trabalham para as corporações não têm os seus próprios interesses servidos”, continuou, urgindo os governos que protejam os cidadãos e que estes “lutem por isso”.

Sarsgaard, que a audiência também verá em “The Batman” de Matt Reeves, com estreia em março de 2022, expressou a sua convicção de que os opiáceos têm o seu papel, mas em caso muito específicos.

“Penso que somos uma sociedade que decidiu eliminar a dor do mapa”, disse. Referindo que drogas ditas ‘pesadas’ “têm um uso válido, por exemplo, para doentes terminais”, o ator disse esperar que “haja mais consciência dos potenciais perigos de algo assim e as pessoas possam decidir, por exemplo, usar algo mais fraco e lidar com a dor”.

“Dopesick” é uma minissérie de oito episódios e estará disponível no espaço “STAR” da plataforma Disney+.

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