A integração dos cuidados prestados aos utentes entre os centros de saúde e os hospitais estagnou no último ano, após terem sido criadas no início de 2024 as unidades locais de saúde (ULS) em todo o país.
Esta é a principal conclusão do barómetro que avaliou o grau de perceção dos profissionais das 39 ULS sobre a integração de cuidados de saúde, uma iniciativa da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), que contou com o apoio de várias entidades e que será apresentado numa conferência que começa hoje em Fátima.
“Há uma estagnação dos resultados que obviamente nos deve preocupar. Esperar-se-ia uma melhoria do nível da integração” entre os cuidados de saúde primários e hospitalares, adiantou à Lusa o presidente da APAH, Xavier Barreto.
No início de 2024, no âmbito da reforma da organização do Serviço Nacional de Saúde, foram criadas 31 ULS, que se juntaram às oito já existiam, passando os centros de saúde e os hospitais a estarem integrados numa única entidade por área geográfica para facilitar o percurso dos utentes no sistema.
Cerca de três anos após esta alteração no funcionamento do SNS, a terceira edição do barómetro indica que, numa escala de 0 a 5, os profissionais de saúde avaliaram com 3,29 a integração global de cuidados nas ULS, uma média “moderadamente positiva” e igual à do ano anterior.
De acordo com o estudo, que avalia seis dimensões - normativa, informativa, clínica, sistémica, administrativa e financeira -, as ULS existentes antes de 2024 apresentam uma perceção mais positiva do processo de integração, com 3,42.
Esse resultado confirma a ideia de que “é preciso algum tempo para que este movimento de integração aconteça no terreno”, salientou Xavier Barreto, para quem é necessária, além dos normativos já em vigor, uma maior integração da componente clínica.
“É preciso que as duas partes falem mais, acordem sobre como é que devem ser tratados, diagnosticados e acompanhados os nossos doentes. Isso, de facto, não está a acontecer, pelo menos na medida que nós gostaríamos que estivesse”, alertou o presidente da associação.
Das seis dimensões avaliadas no barómetro, a clínica aparece como a terceira classificada, com 3,22, uma ligeira redução face aos 3,24 registados no estudo anterior.
Para melhorar o percurso clínico dos utentes entre os dois níveis de cuidados, Xavier Barreto defendeu a necessidade de sentar à mesa os profissionais de saúde de várias áreas dos cuidados hospitalares e primários, mas também entidades como as farmácias e autarquias.
“Esta discussão, aquilo a que chamamos de percurso clínico assistencial, está por fazer na maior parte das patologias e na maior parte das ULS”, realçou o presidente da associação, para quem isso se deve, em parte, à falta de disponibilidade dos gestores e dos responsáveis clínicos das unidades de saúde.
“Há pouco tempo porque estamos sempre a responder a urgências, aos fogos que têm de ser apagados, às urgências que têm escalas incompletas e, portanto, esta situação também prejudica este movimento de integração” dos cuidados, lamentou Xavier Barreto.
O barómetro colocou a dimensão financeira com a pior avaliação (2,90), concluindo ser “evidente a discórdia sobre temas relacionados com a remuneração e incentivos”.
Xavier Barreto explica essa discórdia com diferenças na atribuição dos incentivos entre os hospitais e os centros de saúde, alegando que essa desigualdade “não faz sentido”.
“As pessoas queixam-se de que não existem incentivos uniformizados entre as diferentes partes das ULS, particularmente entre os hospitais e os centros de saúde. Eu acho que se queixam com razão”, reconheceu o presidente da APAH.
Com este estudo, a associação pretende “medir o pulso” aos resultados da reforma que criou as ULS, no sentido de “perceber o que está a acontecer no terreno”, adiantou ainda Xavier Barreto, esperando que, na sequência dessa discussão, o Governo possa implementar medidas.