Tal como muitas pessoas higienizavam alimentos com desinfetante no início da pandemia de covid-19, quando ainda não se sabia como o vírus se propagava, também os macacos ficam mais desconfiados em relação à comida após expostos a um vírus.
Uma investigação realizada nos Estados Unidos, cujas conclusões foram publicadas pela revista da Royal Society de Londres, surgiu a partir de um surto de retrovírus símio do tipo II num santuário de primatas no sul do Texas (EUA).
O local alberga vários grupos de macacos-japoneses, descendentes de animais trazidos do país asiático em 1972.
Em 2020, a equipa do santuário confirmou a presença deste vírus em alguns dos grupos de macacos. Os animais adoeceram gravemente e, em alguns casos, chegaram mesmo a morrer.
O vírus era transmitido principalmente através de mordeduras e arranhões. Perante isto, o santuário tomou medidas como separar os animais, submetê-los a quarentena, quando necessário, e realizar testes.
Para a experiência, os animais foram divididos em quatro grupos: três tinham sido afetados pelo surto e um não.
De seguida, os investigadores realizaram testes com 55 macacos para observar como reagiam ao escolher entre um alimento da sua preferência, colocado sobre uma superfície de madeira limpa, e o mesmo alimento posicionado sobre uma superfície coberta com fezes reais de outros macacos, seladas sob uma camada de plástico transparente.
Dentro dos grupos expostos ao surto, alguns indivíduos foram infetados, enquanto outros conviveram com macacos doentes sem, no entanto, contraírem o vírus.
Isto permitiu aos investigadores investigar se a experiência de vivenciar um surto, mesmo sem adoecer, poderia alterar o comportamento dos animais.
Em alguns testes, a superfície limpa foi substituída por uma esponja de cores vivas, para determinar se os animais simplesmente evitavam objetos desconhecidos ou se, de facto, evitavam o contacto com as fezes de outros animais, mesmo que estivessem cobertas, impedindo que os animais as cheirassem ou fossem infetados.
Investigações anteriores mostraram que os macacos não são necessariamente desencorajados pela contaminação quando a recompensa é atraente e os macacos-japoneses selvagens continuavam a comer amendoins sobre uma superfície coberta de fezes, mas evitavam o local quando se tratava de alimentos de menor valor, como grãos de trigo.
Nesta experiência, não houve qualquer recompensa aliciante que os levasse a correr riscos e os macacos dos três grupos que experienciaram o surto viral, independentemente de terem sido infectados ou não, evitavam comer na superfície onde estavam as fezes cobertas.
Por outro lado, os macacos do grupo que não teve contacto com o vírus comiam à superfície com fezes em 79% dos casos.
"Isto sugere que a mudança de comportamento está associada ao facto de ter experienciado o surto, e não necessariamente ao facto de ter contraído a doença", apontou um dos autores, Stephan Kaufhold, investigador da Universidade da Califórnia em San Diego, num comunicado da instituição.
Um dos aspetos mais intrigantes da descoberta é que o vírus não se propagou através de alimentos contaminados, mas sim através do sangue e da saliva, através de mordeduras e arranhões.
Facto é que os macacos que adoeceram, e aqueles que presenciaram o adoecimento dos seus pares, mostraram-se mais relutantes em consumir alimentos colocados sobre uma superfície que, a olho nu, parecia estar contaminada.
"Isto demonstra que as mudanças no comportamento de evitar os agentes patogénicos, que dependem da experiência, não são exclusivas dos seres humanos", acrescentou Kaufhold.
Segundo os cientistas, os macacos podem partilhar com os humanos aquilo a que chamam "sistema imunitário comportamental", um conjunto de comportamentos que ajudam a evitar infeções antes que o sistema imunitário do organismo necessite de entrar em ação.
Este sistema é ativado perante uma suspeita, mesmo que não se trate, de facto, de uma fonte de contágio.