A Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) gastou quase três milhões de euros em apoios sociais a famílias afetadas pela doença em 2025 e volta a apelar ao Estado para pagar a 100% o subsídio de doença aos doentes oncológicos.
A reivindicação da LPCC é acompanhada por um estudo hoje divulgado, segundo o qual o pagamento da baixa médica a 100% aos doentes oncológicos teria um impacto líquido estimado de 14 milhões de euros no Orçamento do Estado, 1,4% da despesa total associada ao subsídio de doença.
Nas simulações apresentadas no estudo, promovido pela LPCC, a perda de rendimento líquido nos primeiros 30 dias de baixa é de 44% para um trabalhador com um salário bruto mensal de 920 euros e de 35% para um salário de 1.694 euros.
“Este tipo de baixas são, sem dúvida alguma, dramáticas para as pessoas que menos ganham”, disse à Lusa o presidente da LPCC, Vítor Veloso, considerando que esta medida faria “toda a diferença” na vida destes doentes.
“É na altura em que as pessoas precisam mais ajuda, em todos os aspetos, em que tudo falha. Falha a parte emotiva, a parte psicológica, a angústia, o medo, tudo isso. E, ainda por cima, vem a sobrecarga das dificuldades económicas”, lamentou.
Segundo o oncologista, a Liga consegue “remediar algumas dessas situações”, mas não chega a todos os doentes que precisam de ajuda, cujo número tem vindo a aumentar. Há, contudo, muitos doentes, a maioria, que nem solicita apoios, em alguns casos por vergonha.
“No ano passado, sustentámos algumas dessas famílias com quase três milhões de euros de subsídios à alimentação, ao transporte, a bens alimentares, em água, eletricidade, enfim, um sem número de situações que tentam pôr, do ponto de vista económico, alguma ordem e algum equilíbrio nessa família já traumatizada”, salientou.
Vítor Veloso reconheceu, contudo, que os recursos da instituição são insuficientes para responder a todas as necessidades: “Temos a noção que, efetivamente, estes milhões, que são o que temos para gastar, não são suficientes e, portanto, há muitos outros milhões que, provavelmente, poderiam ser amealhados se, porventura, esta baixa fosse paga a 100%”.
Ainda assim, quis deixar uma garantia: “A LPCC, dentro das suas disponibilidades, está perfeitamente aberta a auxiliar todos estes doentes que necessitam de ajudas económicas, sociais, psicológicas, enfim, um sem número de situações de apoio, inclusive juristas, nutrição, tudo gratuito”.
“Portanto, a Liga está disponível, mas, efetivamente, quer que também o Estado tome consciência de que estes 100% (...) são uma proposta com fundamento”, desejável, que, afirmou, "se fosse aprovada, provavelmente, viria remediar a situação económica dos doentes mais carenciados”.
Sobre a origem do estudo, explicou que a iniciativa surgiu depois de, no ano passado, a Liga ter apresentado a proposta ao parlamento, que não foi aprovada, uma vez que alguns partidos votaram contra e outros se abstiveram.
Perante esse resultado, a instituição considerou necessário dispor de “um estudo consolidado” e encarregou a consultora Forvis Mazars de o realizar no sentido de saber qual era o impacto orçamental a nível do Estado que teria esta medida.
Vítor Veloso adiantou que o estudo está a ser apresentado aos grupos parlamentares e que a Liga pretende também levá-lo a uma reunião plenária da Comissão de Saúde.
A LPCC quer ainda apresentar as conclusões aos ministérios da Saúde da Economia e à Presidência do Conselho de Ministros, procurando sensibilizar estas entidades para a medida.
“É uma pretensão justíssima que vem colmatar, do ponto de vista social, uma situação que é altamente dramática, que é altamente traumatizante para um doente que recebe um diagnóstico que já por si tem uma envolvência enorme e de peso negativo”, concluiu.