O aumento dos consumos problemáticos de droga torna mais visível a toxicodependência e cria a sensação de que há mais pessoas a consumir, mas os últimos dados nacionais não apontam nesse sentido, segundo o instituto das dependências.
A presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), Joana Teixeira, afirmou, em entrevista à agência Lusa, que “os consumos que existem são cada vez mais graves, mas não há um aumento de prevalência de consumo, pelo menos nos últimos dados nacionais”.
Sublinhou que a maior gravidade dos casos também torna as situações mais visíveis e pode criar a perceção de um aumento dos problemas de consumo e de toxicodependência.
A presidente do ICAD explicou que o perfil dos consumos também se alterou, com a diminuição do peso da heroína e o aumento do consumo de cocaína e do ‘crack’.
“Antigamente, haveria um aumento de consumo de heroína, sobretudo endovenosa. Atualmente, assistimos a um aumento de consumo de cocaína e, sobretudo, de ‘crack’”, que é “mais acessível”, “mais barato” e com “um potencial aditivo muito grande”.
“É muito desorganizador para a pessoa e tornam-se muito visíveis as consequências negativas associadas ao seu consumo”, salientou.
As novas substâncias psicoativas são outra preocupação do ICAD, sobretudo pelo consumo entre os jovens e pela dificuldade em conhecer antecipadamente os seus efeitos.
O último Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, com dados de 2022, não permite estabelecer uma tendência para estas substâncias, uma vez que a percentagem de consumidores é residual nas diferentes faixas etárias.
Entre os jovens de 18 anos que participaram no Dia da Defesa Nacional em 2025, a prevalência de consumo recente de novas substâncias psicoativas foi, contudo, de 2,3%, próxima dos valores registados para a cocaína, de 2,4%, e para os alucinogénios, de 2,3%.
Joana Teixeira alertou para os riscos destas substâncias, muitas vezes adquiridas através da internet, e para as consequências que podem ter na saúde mental, incluindo surtos psicóticos.
Questionada sobre casos concretos de jovens que tenham chegado aos hospitais com surtos psicóticos associados a estes consumos, disse que o ICAD não dispõe dessa informação, mas afirmou que essas situações ocorrem na prática clínica.
O ICAD está também a acompanhar a relação entre os consumos e as comorbilidades psiquiátricas, uma das áreas que considera prioritárias.
Questionada sobre as declarações recentes do comandante do comando metropolitano de Lisboa da PSP, Luís Elias, que pediu mais investimento no apoio aos toxicodependentes e disse que o combate ao tráfico e consumo de droga “não é só da polícia”, mas também da saúde e segurança social, Joana Teixeira respondeu que esta resposta passa por uma maior articulação entre instituições.
Sustentou que existe “uma necessidade de trabalho em conjunto entre as várias instituições” e revelou que, no dia 25 de setembro, o conselho diretivo do ICAD se reuniu com o comandante da PSP e representantes das divisões de polícia das áreas mais problemáticas de Lisboa e da Amadora.
“Temos de envolver os vários parceiros e vai ser desta ação concertada entre as várias instituições que nós vamos conseguir realmente dar uma resposta de intervenção capaz nesta problemática”, afirmou.
O trabalho deverá ser alargado aos municípios e também à Segurança Social, para procurar respostas conjuntas para os casos de maior gravidade.
Também questionada sobre uma eventual falta de profissionais nas equipas de rua, Joana Teixeira disse não ter recebido dados que lhe permitissem corroborar a informação, e afirmou que os projetos financiados pelo ICAD e pelos municípios estão implementados e a funcionar normalmente.
Admitiu, contudo, que existem dificuldades de recursos humanos noutras respostas do instituto, afirmando que os recursos disponíveis para esta área “estão neste momento a escassear” e que há dificuldades em ter profissionais em número suficiente.
Anunciou ainda que o ICAD está a realizar um diagnóstico nacional para identificar as zonas de maior fragilidade e as que necessitam de maior intervenção, cujos resultados deverão estar disponíveis até ao final do ano.
Segundo Joana Teixeira, esse diagnóstico deverá permitir compreender melhor eventuais diferenças nos padrões de consumo associadas à evolução demográfica e à imigração.
Joana Teixeira destacou, por outro lado, a evolução positiva de vários indicadores de consumo em Portugal e afirmou que o país está “muito bem posicionado” no contexto europeu relativamente ao consumo de substâncias ilícitas.