No Canal S+ (posição 129), o enfermeiro especialista em saúde mental e psiquiatria, Ângelo Marinho, traçou um retrato preocupante do sistema prisional, alertando para a escassez de recursos, infraestruturas obsoletas e a desvalorização dos profissionais de saúde que trabalham com uma população reclusa altamente vulnerável.
A crise de sobrelotação que afeta o Serviço Nacional de Saúde (SNS) é tema constante na agenda pública, mas esconde uma realidade paralela igualmente grave, mas invisível a olho nu. No programa Efeito Placebo, o enfermeiro Ângelo Marinho, que também desempenha funções de secretário do Conselho Diretivo da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros, comparou a pressão sentida nos hospitais e o cenário vivido no sistema prisional.
"Pensemos nas urgências de hoje em dia, que toda a gente fala, estão sobrelotadas. Os estabelecimentos prisionais também estão sobrelotados", alertou, sublinhando a diferença no impacto público de ambas as situações: as urgências estão à vista de todos, enquanto as prisões permanecem invisíveis.
Para Ângelo Marinho, reforçar apenas o número de profissionais sem resolver as causas estruturais da sobrelotação é insuficiente. "Por muitos enfermeiros e médicos que ponhamos nas urgências, se isto se mantiver sempre assim, é correr sempre atrás do prejuízo. Nos estabelecimentos prisionais é um bocadinho igual, só que temos outra questão: é um sistema mais hermético, as pessoas andam dentro do próprio sistema", explicou.
Complexidade de saúde e barreira no acesso aos cuidados
O enfermeiro especialista em saúde mental e psiquiatria, recordou que perder a liberdade não implica perder também o direito à saúde. No entanto, no terreno, a realidade é outra: população prisional com uma elevada prevalência de comorbilidades físicas, infeções, dependências e patologias de saúde mental — cenário agravado por determinantes sociais desfavoráveis desde o nascimento.
"São pessoas que nascem num meio em que já é difícil ter acesso à saúde. Entram neste registo e continua a ser preservada essa dificuldade", apontou Ângelo Marinho, enfatizando que os cuidados de enfermagem nas prisões devem ir muito além da mera "administração de terapêutica". O diagnóstico precoce de perturbações de saúde mental e o acompanhamento de doenças crónicas, defende, são cruciais.
Instalações degradadas e apelo à articulação Governamental
Além do défice de profissionais e da ausência de dotações seguras de enfermagem, Ângelo Marinho identificou as infraestruturas como um obstáculo central. Como exemplo, citou o Hospital São João de Deus, em Caxias, descrevendo-o como um edifício "já muito antigo e com poucas obras".
Perante este cenário, defendeu uma ponte urgente entre a tutela da Saúde e a da Justiça. "O mais importante é que quem gere, sobretudo o Ministério da Justiça, promova uma aproximação de partes para podermos garantir o mínimo", apelou, concluindo com uma mensagem de reflexão sobre o abandono a que o setor é votado: "São pessoas esquecidas e os profissionais que estão dentro destas instituições também são muito esquecidos."