A proposta do PS para criação de uma comissão eventual na Assembleia Municipal de Lisboa (AML) sobre o descarrilamento do elevador da Glória foi hoje aprovada pelos partidos da esquerda e o Chega, após ter sido rejeitada há meses.
Em 03 de setembro, precisamente um ano depois do acidente que provocou 16 mortos e 24 feridos, o PS na Assembleia Municipal de Lisboa insistiu na criação de uma comissão eventual sobre o acidente, proposta que voltou a apresentar após ter sido rejeitada há pouco mais de três meses pela maioria de direita na AML (PSD, CDS-PP, IL e Chega).
A proposta foi hoje novamente discutida em reunião da AML e recebeu os votos favoráveis dos deputados do PS, PCP, BE, Livre, PEV e, desta vez, também do Chega, enquanto os do PSD, CDS-PP e IL mantiveram o voto contra.
"Quero ser muito claro sobre aquilo que esta comissão não é: não somos investigadores, para isso existe o grupo de prevenção e investigação de acidentes e os órgãos de investigação criminal; não somos juízes, para isso existe o Ministério Público; não somos peritos, para isso existem os engenheiros e técnicos especializados, e não somos jornalistas, ainda que até hoje tenha sido pelos jornais, e só pelos jornais, que esta casa soube das buscas na Carris, dos arguidos constituídos, do adiamento do relatório para 2027 e da decisão de não recuperar o ascensor", começou por realçar o socialista Hugo Gaspar na apresentação da proposta.
O deputado municipal sublinhou que o PS se recusa a fazer julgamento público dos trabalhadores da Carris, da sua administração e dos responsáveis políticos.
"Não contem connosco para populismos oportunistas, contem connosco para uma coisa apenas: posições moderadas, sentados à mesa de trabalho, onde os representantes eleitos dos lisboetas acompanhem com seriedade e sem alarido a resposta a 16 mortes", enfatizou.
Após acusações do PSD e da IL de negociações com o Chega pelo seu voto favorável, decisivo para a aprovação da proposta, Hugo Gaspar desmentiu "categoricamente" as "insinuações". Já quanto às acusações de "aproveitamento político", o socialista questionou: "Haverá maior aproveitamento político do que anunciar a solução para o elevador da Glória na semana em que fez um ano da tragédia?".
Entre as matérias que o PS considera que devem ser acompanhadas pela AML estão a implementação das recomendações de segurança, as alterações aos mecanismos de controlo interno e de gestão da segurança da Carris, a contratação e fiscalização da manutenção, as auditorias em curso, as medidas de apoio e reparação às vítimas, as condições de regresso dos equipamentos históricos à operação e o desenvolvimento da nova instalação do ascensor da Glória.
Pelo PSD, Liliana Fidalgo reiterou que a AML já dispõe de instrumentos para fiscalizar, ouvir responsáveis e pedir esclarecimentos à Câmara Municipal, questionando o PS porque não os utilizou e acusando os socialistas de quererem criar um "palco político" em torno da tragédia do elevador. "O PSD não tem receio do escrutínio […], mas o escrutínio faz-se procurando respostas, não se faz criando estruturas apenas porque as estruturas que já existem não foram utilizadas", vincou a social-democrata.
Já Pedro Bugarin, da IL, acusou também o PS querer criar "palcos políticos precipitados" e considerou que a proposta "não é mais do que uma teimosia injustificável", reiterando que, depois das conclusões das investigações ao acidente, a IL "estará na linha da frente pelo esclarecimento e procura e assunção de todas as responsabilidades", enquanto Martim Borges de Freitas, do CDS-PP, defendeu que "os mecanismos que justificam a espera estão a funcionar".
No sentido oposto, Sofia Lisboa, do PCP, apontou que "as opções de gestão tomadas ao longo dos anos tiveram consequências concretas na segurança e fiabilidade" dos ascensores, exigindo fiscalização, documentação e respostas, enquanto Rodrigo Machado, do BE, defendeu que a AML pode e deve "apurar responsabilidades administrativas, institucionais e políticas".
Pelo Livre, João Monteiro considerou que existem ainda "muitas perguntas e poucas respostas" sobre o acidente, apontando que "as famílias das vítimas merecem que este assunto não seja ignorado", e Cláudia Madeira, do PEV, lembrou que a comissão eventual é um instrumento previsto no regimento da AML, considerando que "cabe a esta assembleia, enquanto órgão fiscalizador, questionar a atuação do município e exigir.
Por parte da governação PSD/CDS-PP/IL, o vereador Vasco Anjos (IL), o único membro da liderança de Carlos Moedas (PSD) presente na reunião de hoje, assegurou que o executivo "não se esconde" e "respeitará e colaborará com todos os processos de acompanhamento e escrutínio" determinados pela AML.
Numa declaração de voto oral, o deputado do Chega Luís Pereira Nunes enfatizou que o voto favorável "não deverá ser interpretado como voto de apoio a uma iniciativa do PS, mas em nome da transparência e compromisso com os lisboetas" de escrutinar a atuação do município.