A Urgência de Ginecologia e Obstetrícia de Abrantes esteve encerrada 32 dias até meados de setembro, contra 50 em todo o ano de 2025, informou a ULS Médio Tejo, que aponta a falta de especialistas como principal dificuldade.
“A génese dos constrangimentos reside na escassez de médicos especialistas em Ginecologia e Obstetrícia”, refere a Unidade Local de Saúde (ULS) Médio Tejo, presidida por Casimiro Ramos, acrescentando que a dificuldade afeta tanto o quadro próprio como o recurso a prestadores de serviços.
A informação escrita da ULS foi lida na terça-feira pelo presidente da Câmara de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos (PS), numa reunião do executivo deste concelho do distrito de Santarém, após um pedido de esclarecimentos do autarca sobre os períodos de encerramento, motivos, encaminhamentos e recursos humanos do serviço.
O pedido surgiu depois de, na reunião de Câmara de 08 de setembro, o vereador Nuno Serras (Chega) ter questionado os constrangimentos da urgência obstétrica e solicitado dados sobre os períodos de indisponibilidade e o encaminhamento das grávidas.
Manuel Jorge Valamatos comprometeu-se então a pedir informação à administração da ULS Médio Tejo e defendeu que a Urgência de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Abrantes deveria funcionar todos os dias, considerando-a uma resposta de importância regional.
Dos 32 dias de encerramento registados entre janeiro e meados de setembro deste ano, 23 concentraram-se entre julho e a primeira metade de setembro.
O serviço dispõe atualmente de quatro médicos obstetras no quadro, todos com mais de 60 anos, dos quais apenas três realizam serviço de urgência.
A ULS recorda que, por lei, o serviço de urgência deixa de ser obrigatório a partir dos 55 anos, sendo o preenchimento das escalas assegurado também por cerca de 12 médicos prestadores, consoante a disponibilidade.
Esta situação gera, segundo a unidade de saúde, uma “forte dependência externa” para garantir o funcionamento regular do serviço.
A dificuldade em preencher as escalas começou a fazer-se sentir em meados de 2022, sobretudo devido à passagem à reforma de vários médicos do quadro, situação que se agravou nos anos seguintes.
Nos períodos em que não existem condições para manter a urgência obstétrica aberta, as grávidas que se deslocam ao Hospital de Abrantes sem contacto prévio com a Linha SNS Grávida são triadas e atendidas na urgência geral.
Estão ainda disponíveis duas ambulâncias, 24 horas por dia, exclusivamente destinadas ao transporte das utentes para outra unidade hospitalar em funcionamento, tendo este recurso representado, em cerca de um ano e meio, uma média de um transporte por cada dia de encerramento.
A ULS admite não conseguir quantificar com rigor o número total de grávidas desviadas, uma vez que, quando existe contacto prévio com a Linha SNS Grávida, o CODU encaminha diretamente a utente para outra urgência e esse movimento não fica registado no sistema da unidade do Médio Tejo.
Apesar dos 50 dias de encerramento em 2025, a maternidade de Abrantes realizou 823 partos, mais 68 do que em 2024, aumento atribuído pela ULS a uma maior afluência de utentes e à receção de grávidas encaminhadas de outras regiões.
Para atrair e fixar profissionais, a ULS aponta medidas a desenvolver com os municípios, como garantia de vagas em creche para filhos de profissionais de saúde, acesso a serviços sociais, culturais e desportivos e eventuais benefícios fiscais municipais.
A nível nacional, o Serviço Nacional de Saúde registou até agosto 278 dias de encerramento de urgências hospitalares, menos 67% do que em 2025, segundo dados divulgados pela ministra da Saúde, Ana Paula Martins.
Na Obstetrícia, foram contabilizados 255 dias de encerramento até agosto deste ano, contra 691 em 2025 e 1.040 em 2024.
A ministra reconheceu, contudo, que os problemas “não estão resolvidos”, apontando a falta de profissionais, designadamente obstetras e anestesistas, e a pressão elevada sobre as equipas.