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Jornalismo com sinais de desgaste e risco de abandono - relatório

LUSA
23-09-2026 00:01h

A relação dos jornalistas com a profissão mostra sinais de desgaste e risco de abandono, conclui um relatório hoje divulgado, que aponta como prioridades o reforço da qualidade das lideranças e a revisão das cargas de trabalho e horários.

O relatório do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (Labpats), a que a Lusa teve acesso, sublinha que a sustentabilidade do jornalismo passa pela “sustentabilidade das pessoas que o fazem” e diz que o sindicato pode assumir um “papel estratégico” na negociação de condições dignas, defesa da estabilidade e da carreira, prevenção de riscos psicossociais e acompanhamento de situações de vulnerabilidade.

Em declarações à Lusa, a coordenadora do estudo, a psicóloga Tânia Gaspar, disse que o jornalismo estava identificado como uma profissão de maior risco e os dados provam-no.

“Embora seja um perfil parecido [com o das restantes profissões], agrava um bocadinho. Na questão das lideranças, as lideranças dos jornalistas de alguma forma ainda pesam mais nesta matéria do bem-estar e os sintomas de ‘burnout’ também são mais elevados”, referiu a especialista.

Tânia Gaspar destacou as questões éticas e as dificuldades atuais acrescidas de uma profissão que tem uma grande carga de trabalho e em que os próprios profissionais confessam que, por vezes, têm dificuldade em verificar tudo e investigar como gostariam.

“Por vezes também já foram ameaçados pelas noticias que publicaram e, muitas vezes, vão cobrir acontecimentos muito difíceis emocionalmente, o que aumenta a necessidade de apoio psicológico”, lembrou.

Como prioridades de ação, os peritos do Labpats destacam a necessidade de reforçar a qualidade das lideranças, com Tânia Gaspar a lembrar que estes profissionais estão duplamente pressionados, pois “têm de apresentar resultados”, sublinhando a dificuldade de responder às solicitações sem ter os recursos necessários.

“Só se pode exigir aos profissionais aquilo que é possível dar com bem-estar. É este o clique que é preciso fazer", afirmou.

Como sugestões, os peritos recomendam rever cargas de trabalho e horários, valorizar as remunerações e a progressão na carreira e criar respostas estruturadas de saúde mental.

Recomendam ainda medidas para prevenir o ‘burnout’, já que 52,9% apresenta pelo menos quatro sintomas da doença, o que aponta para um desgaste profissional que “já não pode ser tratado como um problema exclusivamente individual”, avisam.

Dos 750 jornalistas que participaram neste estudo, metade (50,6%) são sindicalizados e estes são os que apresentam valores mais elevados na gestão de stresse, o que os especialistas dizem que pode sugerir que a pertença sindical está associada a uma “maior perceção de recursos, enquadramento coletivo ou capacidade de lidar com situações de pressão”.

O relatório fala de ritmos de produção exigentes e, em alguns casos, “difíceis de compatibilizar com tempo de recuperação e vida pessoal”.

A este nível, Tânia Gaspar lembrou que, mesmo nos que são muito disponíveis “há limites” para conseguir conciliar a vida profissional com a pessoal e apontou os níveis de presentismo, que são mais elevados no jornalismo do que em outras profissões, considerando que “as pessoas acabam por ficar mais desmotivadas”.

A psicóloga chamou ainda a atenção para o facto de os jornalistas mais seniores ficarem desiludidos com a questão da progressão na carreira: “sentem que o tempo de profissão não está a ser acompanhado nem com reconhecimento financeiro nem com progressão na carreira”.

“É neste equilíbrio que se tem de começar a pensar mais”, insistiu, vincando que o paradigma está a mudar e os profissionais estão a perceber que precisam de se sentir bem para terem um bom desempenho: “às vezes basta um pequeno detalhe para as coisas seguirem outro rumo”.

Os jornalistas que responderam apontaram a necessidade de reforçar recursos humanos, melhorar a distribuição do trabalho e a estabilidade laboral. Apelaram igualmente ao cumprimento efetivo das regras laborais.

O Labpats estuda a saúde e o bem-estar dos profissionais e das organizações, ajudando a definir políticas com impacto na saúde e bem-estar, desenvolvimento saudável e sustentável dos profissionais e das instituições.

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