O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, alertou hoje para a "inegável" ligação entre conflito armado, violência e fome e pediu ao Conselho de Segurança que utilize todos os instrumentos disponíveis para travar esse "ciclo vicioso".
O pedido de Guterres foi feito num debate de alto nível do Conselho de Segurança da ONU, que se reuniu hoje para abordar a insegurança alimentar relacionada a conflitos.
"Esta é uma oportunidade para o Conselho abordar uma realidade perigosa e em constante evolução. Os sistemas alimentares essenciais — e as vidas e os meios de subsistência que sustentam — estão sob ataque. (...) Fome zero é alcançável. Mas isso exige o combate às muitas causas profundas da fome, incluindo os conflitos", disse.
Guterres deu como exemplo o Sahel, onde os agricultores são expulsos dos seus campos à medida que os conflitos interrompem a agricultura, o comércio e os meios de subsistência, e a insegurança alimentar se agrava em toda a região.
No Sudão, os mercados foram atingidos por ataques de drones e mísseis. No Haiti, a violência dos gangues isolou comunidades inteiras.
De Gaza ao Mali, de Myanmar ao Sudão, os trabalhadores humanitários foram impedidos de aceder ao país para prestar assistência a pessoas em extrema necessidade, sendo que alguns sofreram ataques diretos e acabaram mortos, lamentou o líder da ONU.
Guterres referiu ainda a guerra na Ucrânia, que está a afetar as exportações de cereais e de energia no Mar Negro, e o conflito no Médio Oriente, nomeadamente as restrições no estreito de Ormuz e os ataques a embarcações comerciais no Mar Vermelho.
"Não é coincidência que 2025 tenha testemunhado não só o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial, mas também um dos níveis mais elevados de fome aguda global de que há registo, com pelo menos 266 milhões de pessoas a enfrentar uma insegurança alimentar aguda", declarou o secretário-geral.
Além disso, 2025 marcou também a primeira vez neste século em que se confirmaram duas fomes em simultâneo: no Sudão e em Gaza.
"Um marco vergonhoso", lamentou o antigo primeiro-ministro português.
O último relatório da ONU sobre os pontos críticos da fome mostra que os conflitos e a violência são os principais fatores em 12 dos 13 pontos críticos de fome de maior preocupação.
Nesse sentido, Guterres dirigiu os seus apelos ao Conselho de Segurança, órgão que aprovou, em maio de 2018, a Resolução 2417, que reconheceu a necessidade de “romper o ciclo vicioso entre o conflito armado e a insegurança alimentar”.
O chefe das Nações Unidas instou o Conselho a implementar "de forma consistente e integral" essa resolução, frisando que o Direito Internacional Humanitário continua a ser violado com impunidade.
Pediu também que o Conselho de Segurança atue sempre que surgirem "sinais de aviso" face a relatos de fome induzida por conflitos, novos riscos de fome e riscos emergentes para os sistemas alimentares e operações humanitárias.
"Não podemos esperar que a fome ou as condições catastróficas sejam formalmente confirmadas", disse.
Apelou ainda ao Conselho para que aplique todos os esforços para garantir a responsabilização de quem nega ajuda humanitária, manter o fluxo de ajuda essencial e proteger aqueles que a prestam.
"A melhor proteção contra a insegurança alimentar é a paz. E as condições mais seguras para a paz são um mundo sem fome", concluiu.
A reunião de hoje, intitulada “Alimentos sob ataque: o papel do Conselho de Segurança na mitigação das crises alimentares globais e locais”, é um evento especial da presidência dinamarquesa do Conselho em agosto e foi presidida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen.