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Proprietários de Sintra-Cascais pedem controlo de javalis e ICNF admite armadilhas

LUSA
14-08-2026 18:23h

A presença de javalis na serra de Sintra preocupa proprietários de quintas, que pedem ações de controlo, enquanto a Parques de Sintra reforçou a monitorização e o ICNF admite capturas com armadilhas, embora ainda não exista “um problema”.

“Já há alguns anos que existem, mas o problema maior foi desde há dois anos, talvez, e tem vindo a agravar-se. O ano passado foi pior e este ano vamos a ver”, mas “cada vez são mais, isso não há dúvida nenhuma”, afirmou Rita de Castro Neto, acerca da presença de javalis na área protegida.

A presidente da Associação de Proprietários de Quintas da Serra de Sintra (APQSS), em declarações à Lusa, acrescentou que devido à presença de javalis há proprietários que instalaram vedações eletrificadas “à volta dos relvados, para evitar que passem”, porque “mesmo que a pessoa ponha cercas, rebentam com tudo”.

Os javalis, contou, andam “essencialmente junto às árvores de fruto, começam a foçar por baixo, à volta dos troncos, e nas hortas e nos relvados”, que frequentemente deixam com várias áreas revolvidas e relva arrancada.

 
“Quando é na altura dos medronhos, e das castanhas, eu percebo. Mas, os relvados não sei, é uma fixação e é impressionante, destroem tudo por onde passam”, notou, dando como exemplo danos na sua quinta e de familiares, na envolvente do Caminho dos Castanhais.

Como se deslocam em varas, com várias crias, há também o risco de provocarem acidentes, alertou ainda Rita de Castro Neto, relatando o atropelamento de um javali por um automóvel, em abril, pelas 01h30, na estrada de Galamares.

A Parques de Sintra-Monte da Lua (PSML), em resposta à Lusa, confirmou que “tem vindo a registar a presença de javalis em áreas sob a sua gestão, quer no perímetro florestal”, integrado no Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC), “quer nos parques da Pena e de Monserrate”.

“Alguns destes registos foram obtidos através da rede de foto-armadilhagem instalada no âmbito de um estudo de inventariação de carnívoros, que permitiu igualmente detetar a presença de javalis”, indicou a sociedade, que reforçou a monitorização através de câmaras com o objetivo de “caracterizar a presença, distribuição e padrões de atividade” dos animais e “avaliar os respetivos impactos”.

 
A monitorização decorre desde outubro de 2025 e os dados encontram-se em análise, pelo que a PSML não pode para já “indicar com rigor o número de indivíduos“, pois “diferentes registos podem corresponder aos mesmos exemplares”, acrescentou.

“A presença tem, contudo, sido registada com frequência nas diferentes zonas monitorizadas, existindo períodos e locais em que são obtidos registos diários”, referiu a PSML, adiantando que até ao momento registaram-se “danos pontuais” na Pena e em Monserrate, mas sem colocar “em causa as respetivas coleções botânicas”.

A sociedade admitiu ainda “a colaboração com uma universidade pública, através de protocolo”, para “aprofundar o estudo desta população e acompanhar a eficácia das medidas de gestão“.

Além disso, a empresa “reforça a importância de uma abordagem articulada à escala do território”, avaliando “mecanismos de colaboração com outros proprietários e entidades”, como a efetuada em relação à vespa asiática, “embora a gestão da população de javalis tenha características e enquadramento próprios”.

 
Para Rita de Castro Neto, embora os proprietários possam solicitar autorização ao ICNF para abates, “matar um javali não faz diferença”, uma vez que “o problema é de tal forma grave que já não vai lá com matar um javali uma vez por mês“.

A proprietária, que sondou o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) sobre instalação de armadilhas na serra, mas não obteve resposta positiva, prefere a captura dos javalis com jaulas, devido ao risco de “andar aos tiros junto a casas” e numa zona protegida procurada para caminhadas.

“Ainda não está a ser um problema como em outros sítios, mas a Parques de Sintra já pediu licenças para correção de densidades”, indicou Carlos Albuquerque, diretor regional de Conservação da Natureza e Florestas de Lisboa e Vale do Tejo.

Para o dirigente do ICNF, “o excesso de javalis traz problemas nas culturas, nos jardins, nos espaços verdes, nas outras espécies, nas espécies que nidificam no chão, nos pequenos mamíferos, e em Sintra-Cascais não tem predador natural“.

 
“No caso de Sintra-Cascais, em que nem temos caça e nem a densidade populacional ou os aglomerados nos permitem ter uma atividade cinegética convencional, temos que recorrer à correção de densidades, e se os proprietários querem ir para soluções tipo jaulas, nós não temos nada contra”, revelou.

Pelo menos 141 javalis terão sido abatidos no Parque Natural de Sintra-Cascais, no ano cinegético 2025-2026, estima o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que admite a existência de 300 mil animais desta espécie no continente.

O Plano Estratégico e de Ação do Javali em Portugal, promovido pelo ICNF e elaborado pela Universidade de Aveiro, de dezembro de 2022, apontou para “uma estimativa nacional de 277.385 javalis em Portugal continental, podendo este valor variar entre 163.157 e 391.612 javalis”, considerando a variação média de estimativas locais.

Embora o estudo necessite de atualização, após quatro anos da sua conclusão, Carlos Albuquerque, diretor regional de Conservação da Natureza e das Florestas de Lisboa e Vale do Tejo, admitiu em declarações à Lusa que a população destes mamíferos selvagens “ande pelos 300 mil exemplares” no território continental.

Segundo o estudo, “a taxa de extração é reduzida e, nos moldes atuais, não se afigura como suficiente para controlar a população de javali e os impactos que esta representa”, recomendando o aumento do esforço de caça para se tentar controlar os números de javalis em estado selvagem.

De acordo com dados do ICNF, no ano cinegético de 2025-2026 não foram atribuídos selos vermelhos (autorização para correção de densidades), nem amarelos (para caça em geral) para abate de javalis no município de Cascais.

 
“Para Sintra, foram efetuados 22 pedidos de selos vermelhos, tendo sido atribuídos 131 selos, e cinco pedidos de selos amarelos, tendo sido atribuídos 70 selos”, uma vez que cada pedido pode originar várias autorizações, acrescentou o ICNF.

Estes números, salientou Carlos Albuquerque, reportam-se a todo o município de Sintra, incluindo a zona rural e da serra da Carregueira, mas o Parque Natural de Sintra-Cascais (PNSC) deve “ser maioritário nestes pedidos”.

Pegando no exemplo da Arrábida, onde tem sido observada a presença de javalis em áreas urbanas e balneares, o ICNF estimou que, considerando uma taxa de abate de 70%, se terá “141 javalis abatidos na área do parque Sintra-Cascais”.

“O javali faz parte da nossa fauna tradicional, autóctone, mas não queremos ter em Sintra-Cascais o que já vamos tendo noutros parques, noutras regiões do país. Porque é um risco, na serra não temos tanta agricultura, mas temos, por exemplo, turismo de natureza”, explicou Carlos Albuquerque.

O dirigente do ICNF, responsável pelo PNSC, adiantou que vai ter uma reunião com proprietários da serra de Sintra, para os convidar a participar na recondução do plano da área protegida em programa, pois “são responsáveis por grande parte do território, sobretudo aquele mais sensível”, e em cima da mesa estará o controlo de javalis.

“Se os proprietários querem ir para soluções [de armadilhas] tipo jaulas, não temos nada contra e havemos até de institucionalizar isso no quadro da revisão do plano”, adiantou.

Segundo o ICNF, no âmbito da saúde pública, os javalis são considerados “reservatórios e hospedeiros para vários agentes patogénicos“, que além de “poderem transmitir várias doenças ao homem”, também “transmitem doenças a outras espécies do seu ambiente, incluindo carnívoros, ruminantes e aves domésticas e silvestres”.

“A densidade de javali em Portugal tem aumentado nas décadas recentes devido a mudanças no uso do solo, à disponibilidade de alimento de origem antrópica, dispersão natural e à falta de predadores de topo”, apontou o instituto, notando que a sua dieta inclui invertebrados terrestres e aquáticos, assim como vertebrados, sendo responsável “pela regressão de aves que nidificam no solo, designadamente codornizes, perdizes, noitibós, entre outras”.

Em termos de abates, no Parque Natural da Arrábida, no ano cinegético 2025-2026, os números oficiais rondam os 700 animais/ano, e com base nas autorizações concedidas na área de Lisboa e Vale do Tejo, para caça e controlo de densidade excessiva, considerando uma taxa hipotética de concretização de 80%, estima-se em “aproximadamente 6.450 javalis abatidos oficialmente” em toda esta região.

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