A pediatra moçambicana Chila Selemane alertou hoje para riscos para a saúde associados ao uso de plantas medicinais tradicionais no tratamento de doenças em crianças, defendendo que as autoridades aprofundem o estudo desta área para melhor beneficiar os cidadãos.
“O problema não é ser uma planta ou um remédio tradicional. O grande problema é usar o produto quando temos pouca informação sobre o que estamos a administrar, que é o que temos estado a verificar. É importante sabermos que planta está a ser utilizada”, disse a médica pediatra e residente em Pneumologia Pediátrica no Hospital Central de Maputo (HCM), o maior de Moçambique.
A médica falava como oradora durante uma conferência do Ministério da Saúde sobre o “Uso massivo de remédios tradicionais e lacunas de evidência científica”, no qual defendeu a necessidade de avançar com estudos sobre as plantas usadas como remédio tradicional, sobretudo em menores de idade.
“É importante percebermos que existem riscos e efeitos colaterais associados ao uso massivo. Quando falamos de uso massivo, referimo-nos, por exemplo, àquela criança que nasceu e que, desde a primeira semana de vida, vem recebendo uma determinada medicação. Precisamos de saber quais os efeitos colaterais que poderá ter. Essa medicação, administrada durante longos períodos, também pode provocar efeitos colaterais”, afirmou.
A especialista alertou que um dos riscos para a saúde está relacionado com o atraso no diagnóstico de doenças que podem evoluir devido ao recurso a estas plantas, apelando aos pais para que procurem assistência hospitalar perante qualquer enfermidade dos filhos.
“Quando uma criança adoece, nem sempre o primeiro caminho é a unidade sanitária. Muitas mães recorrem primeiro à orientação dos líderes tradicionais e, posteriormente, nem todas chegam à unidade sanitária. Muitas vezes, nós, profissionais de saúde, não sabemos qual foi a dose utilizada, se foi uma dose segura, qual a sua eficácia, nem os seus efeitos”.
“Por isso, não basta aceitarmos ou rejeitarmos o uso da medicina tradicional. Precisamos de avaliar os seus benefícios, conhecer a medicação utilizada e traçar caminhos seguros para a nossa população, especialmente para a população pediátrica”, acrescentou.
Na mesma intervenção, admitiu que as dificuldades de acesso às unidades de saúde são um dos fatores que contribuem para o uso generalizado da medicina tradicional, tendo apelado às autoridades para promoverem estudos sobre as plantas medicinais em benefício de todos os moçambicanos.
“Se os resultados forem favoráveis, podemos avançar para ensaios clínicos, nos quais vamos avaliar a segurança e a eficácia desta medicação. Só depois poderemos falar de uso mais regulado, com controlo de qualidade, definição de doses e vigilância de efeitos adversos. A evidência científica não destrói a tradição, mas ajuda a separar aquilo que pode ser útil daquilo que representa risco”, sublinhou.
Também oradora na conferência, a professora e doutorada em Química Teresa Cossa admitiu ser preocupante o uso massivo de remédios tradicionais em Moçambique, atendendo à insuficiência de informação sobre a composição das plantas e a respetiva toxicidade.
Para a docente da Universidade Pedagógica de Maputo, o desafio está relacionado com a segurança destes remédios, defendendo que, enquanto os riscos não forem conhecidos, as autoridades devem adotar medidas para regular e controlar a sua utilização.
“Fico preocupada quando ando e vejo ervas a serem vendidas. A pergunta que me surge é: onde foram colhidas? Talvez tenham sido recolhidas num local inadequado. É preciso saber em que condições a planta se encontrava e se essas condições eram adequadas. Todos esses fatores devem ser levados em consideração”, afirmou.
A especialista defendeu a transformação do conhecimento tradicional sobre estas plantas em conhecimento científico, considerando que a medicina tradicional pode ser um ponto de partida para ampliar as opções disponíveis na resposta aos problemas de saúde.