O IPO Porto concluiu a adjudicação de dois sistemas de protonterapia, no valor de 53 milhões de euros, “um importante passo” para que o futuro Centro Nacional de Protonterapia “seja uma realidade a médio prazo”, revelou hoje o presidente.
O financiamento provém de uma doação na ordem dos 80 milhões de euros anunciada em outubro de 2024 pela Fundação Amancio Ortega para compra de equipamentos para o primeiro centro português de terapia do cancro com protões, técnica de radioterapia considerada inovadora, de maior precisão e com menos efeitos secundários do que a radioterapia convencional.
Em declarações à agência Lusa, o presidente do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, Júlio Oliveira, revelou que a adjudicação já foi validada pelo Tribunal de Contas, considerando este momento “um importante passo” para a concretização do Centro Nacional de Protonterapia.
“Não estamos só a falar de equipamentos. Isto constitui a materialização de um programa nacional com uma componente, óbvia e necessária, assistencial e clínica, que fará com que o país passe, através do Serviço Nacional de Saúde, a disponibilizar uma tecnologia de ponta, inovadora, para o tratamento do cancro”, disse o presidente.
Júlio Oliveira destacou, ainda, a importância deste programa para o tratamento do cancro em idade pediátrica, lembrando que o número de indicações para recurso a estes tratamentos em crianças está a aumentar por causa da necessidade de poupar o tecido à volta do tumor.
“Isto, naturalmente, porque a criança vai crescer e é absolutamente crítico que se poupe tecido. A sobrevivência do cancro infantil é superior a 80%. É muito, muito, muito importante reduzirmos ao mínimo os efeitos secundários associados a qualquer tratamento que se ofereça à população pediátrica”, descreveu.
Ao contrário da cirurgia, que remove o tumor fisicamente, ou da quimioterapia, que atua por via sistémica, a radioterapia utiliza radiação para destruir as células tumorais.
A radioterapia convencional, baseada em fotões ou raios X, é eficaz mas irradia inevitavelmente tecidos saudáveis antes e depois de atingir o tumor.
Considera-se que a protonterapia representa um avanço técnico significativo: os protões libertam a maior parte da sua energia precisamente no ponto onde o tumor se encontra, poupando de forma muito mais efetiva os tecidos circundantes.
Esta propriedade traduz-se em menor toxicidade, menos efeitos secundários e melhor qualidade de vida durante e após o tratamento.
Os sistemas agora adjudicados, e que serão instalados no futuro Centro Nacional de Protonterapia do IPO do Porto, representam a geração mais avançada desta tecnologia, concebida para tratamentos de elevada precisão em ambiente clínico.
A protonterapia está indicada, em particular, para tumores pediátricos, tumores da base do crânio, da cabeça e pescoço, e outros casos em que a proximidade a estruturas críticas torna determinante a precisão da dose.
Atualmente, os doentes portugueses que necessitam desta tecnologia têm de se deslocar ao estrangeiro.
“Teremos um centro nacional e como centro nacional não é do IPO de Porto, servirá todo o país. Portanto, teremos de trabalhar numa rede de referenciação nacional. Vamos ter de reforçar a capacidade de apoio aos doentes e às famílias que sejam obrigados a deslocarem-se de mais longe para poderem ter acesso a esta tecnologia”, analisou Júlio Oliveira.
À Lusa, Júlio Oliveira destacou que “o próximo passo é agora o lançamento do concurso para a construção da infraestrutura que acomodará estes equipamentos”, num processo que “dada a complexidade e especificidade das estruturas poderá durar alguns anos”.
“No cenário mais favorável, não havendo nenhuma intercorrência significativa durante o período de concurso público e execução da obra, teremos centro no final de 2029, início de 2030”, disse.
O projeto infraestrutural está orçado em cerca de 20 milhões de euros, sendo 85% suportado por fundos do Norte 2030 e os restantes cerca de três milhões pelo Ministério da Saúde.
O centro ficará integrado no parque hospitalar do IPO do Porto, contíguo ao atual edifício de radioterapia, naquele que é atualmente o maior parque tecnológico de radioterapia da Península Ibérica e passará a ser o maior da Europa.
“A construção em si é muito complexa, é uma construção completamente atípica porque a máquina terá de ser montada num edifício que vai ser construído de raiz, de propósito, para aqueles dois equipamentos que vão ser instalados. Daí que só depois de ter o processo concluído de adjudicação do equipamento, é que podemos lançar o concurso público para a construção do edifício”, explicou o responsável.
Já informação remetida à Lusa pelo IPO do Porto dá conta de que a Ion Beam Applications, empresa belga líder mundial neste tipo de tecnologia, prevê entregar os equipamentos em meados de 2028, altura em que estará concluída a primeira fase da obra do edifício, seguindo-se o processo de instalação e verificação técnica dos sistemas.