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Presidente da União das Misericórdias alerta para “debacle social” por falta de respostas aos idosos

LUSA
04-06-2026 06:41h

O presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), Manuel Lemos, entende que “se perderam anos decisivos” no planeamento das respostas ao envelhecimento da população, defendendo um investimento urgente em lares e apoio domiciliário para evitar uma “debacle social”

Em entrevista à Lusa, a propósito do congresso nacional das misericórdias, que vai decorrer entre os dias 4 e 6 de junho em Braga, Manuel Lemos considerou que Portugal enfrenta hoje as consequências de anos de falta de planeamento para responder ao envelhecimento demográfico, uma realidade que classificou como o principal desafio social do país.

Segundo o responsável, a pressão sobre hospitais, lares e famílias resulta de um fenómeno que era previsível, mas que não foi acompanhado pelas respostas necessárias ao nível da proteção social e da saúde.

"Perderam-se aqui anos decisivos. A 'troika' primeiro, depois a geringonça, depois a Covid-19, depois a instabilidade política. Essas coisas têm de ser planeadas", sustentou.

Manuel Lemos defendeu que o Estado deve assumir o envelhecimento como uma prioridade estratégica, através da construção das respostas residenciais necessárias, do reforço da rede de cuidados continuados e da transformação do atual modelo de apoio domiciliário.

Para o presidente da UMP, a falta de respostas adequadas está também na origem da proliferação de lares ilegais.

"Todos sabemos que os lares ilegais proliferam porque não é possível fechar um lar ilegal sem perguntar onde vão ficar aqueles idosos", argumentou.

Manuel Lemos considerou igualmente que os atuais lares acolhem realidades muito distintas, desde pessoas com demência ou sem retaguarda familiar a antigos sem-abrigo ou doentes que receberam alta hospitalar, defendendo a criação de respostas diferenciadas para situações diversas.

Entre essas soluções, apontou o desenvolvimento de modelos semelhantes às residências colaborativas existentes em outros países europeus para idosos autónomos, mas que não conseguem viver sozinhos.

O presidente da UMP criticou também o subfinanciamento das respostas sociais e dos cuidados continuados, defendendo que os valores definidos pelo Estado muitas vezes não correspondem aos custos reais suportados pelas instituições.

Na área dos cuidados continuados, que classificou como uma das maiores preocupações do setor, Manuel Lemos apelou ao Ministério das Finanças para reconhecer os custos efetivos da prestação de cuidados.

"As misericórdias e o setor social só querem o preço justo. O preço justo é pagar aos profissionais dignamente e cobrir as despesas de manutenção e investimento", sublinhou.

O presidente da União das Misericórdias alertou também para a escassez de profissionais, em particular de enfermeiros, considerando que o problema não se resolve através da concorrência salarial entre instituições.

"Se uma misericórdia contrata um enfermeiro de outra misericórdia, resolve o seu problema mas cria o problema à outra. O que é preciso é formar mais enfermeiros", defendeu.

Apesar das críticas, Manuel Lemos reconheceu esforços recentes do Governo para reforçar o financiamento das respostas sociais e admitiu que algumas reivindicações históricas do setor começaram a ser atendidas.

Ainda assim, insistiu que o principal problema continua a ser a falta de planeamento articulado entre as diferentes áreas governativas.

"Hoje é mais urgente fazer tudo de forma articulada. Mais vale sentarmo-nos todos à mesma mesa com o problema à frente do que sentarmo-nos uns em frente dos outros com o problema no meio", afirmou, citando Jean Monnet, considerado um dos principais arquitetos da União Europeia.

Manuel Lemos destacou ainda o papel das misericórdias na resposta social em Portugal, sublinhando a sua presença em todo o território e a capacidade de adaptação às novas necessidades, apontando que "sem as misericórdias e sem o trabalho da União das Misericórdias, o país e os portugueses estariam seguramente piores".

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