O Presidente do Quénia defendeu hoje a instalação de um centro de quarentena norte-americano destinado a cidadãos do Estados potencialmente expostos à mais recente epidemia do vírus Ébola no país, apesar da forte oposição da população queniana.
"Quando o Presidente [dos Estados Unidos, Donald] Trump pediu ao Governo do Quénia para os apoiar através da criação de um centro na base aérea de Laikipia, dei o meu consentimento porque se tratava de um acordo e de uma parceria com amigos que trabalham com o Quénia há 30 ou 40 anos", justificou o chefe de Estado queniano, William Ruto, que ainda não se tinha pronunciado.
O Governo norte-americano deseja trabalhar em parceria com o país da África Oriental para "desenvolver as capacidades necessárias" para garantir que, caso alguma vez precisem de uma instalação, "esta esteja lá para servir o povo queniano", defendeu.
Centenas de pessoas manifestaram-se na segunda-feira na cidade Nanyuki, localizada a cerca de 200 quilómetros a norte da capital Nairobi, onde o centro norte-americano deverá entrar em funcionamento, para protestarem contra esta infraestrutura.
Estes protestos geraram confrontos com as forças de segurança, que lançaram gás lacrimogéneo contra a multidão, segundo os meios de comunicação quenianos.
Muitos quenianos temem o risco de contaminação no Quénia, país que não registou nenhum caso de Ébola e cujo sistema de saúde foi fortemente enfraquecido por anos de corrupção e má gestão.
O Supremo Tribunal do Quénia, a pedido da organização de defesa dos direitos constitucionais queniana Katiba Institute, decidiu na semana passada que o "interesse geral" justificava a suspensão provisória da abertura do centro, enquanto se aguarda que as partes sejam ouvidas sobre o mérito da causa.
A atual epidemia da doença do vírus Ébola, uma febre hemorrágica extremamente contagiosa, foi declarada em 15 de maio no nordeste da República Democrática do Congo (RDCongo).
O Uganda, país vizinho da RDCongo e do Quénia, que confirmou 11 infeções, incluindo uma fatal, é o único outro país para onde o vírus se propagou até ao momento.
A RDCongo e o Uganda relataram 263 casos e 43 mortes confirmadas por Ébola, duas semanas após a confirmação dos primeiros casos, anunciou na segunda-feira a Organização Mundial da Saúde (OMS).
De acordo com um balanço do Africa CDC, a agência sanitária da União Africana (UA), mais de mil casos suspeitos e cerca de 250 mortes foram registados nos dois países.
O vírus do Ébola, que foi detetado pela primeira vez em 1976, junto ao rio com o mesmo nome, na RDCongo, é transmitido através do contacto direto com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas ou animais infetados e provoca febre hemorrágica grave, dores musculares, fraqueza, dores de cabeça, irritação da garganta, febre, vómitos, diarreia e hemorragias internas.
O Ébola provoca uma febre hemorrágica mortal, mas o vírus, que causou mais de 15 mil mortes em África nos últimos 50 anos, é menos contagioso do que a covid-19 ou o sarampo, segundo a OMS.