A região de Tigray, no norte da Etiópia, fez hoje um apelo de emergência a parceiros humanitários, doadores, agências das Nações Unidas, embaixadas e instituições globais, face ao iminente colapso do seu sistema de saúde.
"O sistema de saúde na região de Tigray enfrenta um colapso operacional iminente devido a três crises interligadas: uma grave escassez de combustível, uma interrupção total no fornecimento de medicamentos e severas restrições financeiras", informou em comunicado o Departamento de Saúde da Administração Provisória de Tigray.
Os ‘stocks’ de combustível caíram a pique de 15 milhões de litros para 850 mil em janeiro, e as entregas cessaram por completo desde o início de março. Isto paralisou a resposta a surtos de doenças, deixou as ambulâncias em perigo, comprometeu a cadeia de frio das vacinas e dificultou os procedimentos cirúrgicos, segundo a mesma fonte.
O Departamento de Saúde solicitou, com urgência, cerca de 264 mil litros de gasóleo e 75.470 litros de gasolina para retomar as operações básicas nos próximos três meses. Segundo as autoridades de Tigray, as entregas de material farmacêutico essencial, como soros, antibióticos, anestésicos, formulações pediátricas, terapias antirretrovirais e medicamentos antituberculosos, também não foram realizadas.
"Estes fornecimentos não são opcionais. São a base de cirurgias de emergência, cuidados maternos, controlo de infeções, cuidados de trauma e sobrevivência pediátrica", pode ler-se no documento assinado pelo chefe do Departamento Regional de Saúde de Tigray, Amanuel Haile Aberha.
Sem a restauração imediata destas cadeias de abastecimento, os serviços essenciais, incluindo os cuidados obstétricos de emergência, as cirurgias e o tratamento hospitalar, deixarão de funcionar no território.
Outros problemas incluem défices orçamentais, dificuldades de acesso à liquidez e operações bancárias.
"Desde o início do atual ano fiscal etíope, o orçamento operacional alocado praticamente cessou. (...) O Governo federal cobriu apenas 30% do orçamento salarial necessário em outubro e novembro e 50% em dezembro de 2025. Não foram recebidas verbas salariais nos primeiros meses de 2026", informou o departamento de saúde.
"Caso a situação se mantenha por mais um mês, prevê-se um colapso dos serviços de emergência cirúrgica, um aumento da mortalidade materna e neonatal, um aumento das mortes evitáveis por sépsis e doenças crónicas, uma quebra na vacinação e surtos de doenças", alertou o dirigente.
Aberha enfatizou que "restaurar o fornecimento de combustível, reabrir as cadeias de abastecimento farmacêutico e estabilizar os fluxos financeiros não são atos administrativos; são intervenções que salvam vidas. Milhões de civis dependem da restauração urgente dos serviços essenciais de saúde".
Após a Guerra de Tigray, que começou em 04 de novembro de 2020 e terminou em 02 de novembro de 2022, entre a Etiópia e a Frente de Libertação do Povo de Tigray (TPLF, na sigla em inglês), o Governo federal etíope assumiu a responsabilidade pelo fornecimento de recursos ao território.
Os meios de comunicação locais noticiaram no final de fevereiro que a administração interina da região tinha denunciado interrupções no fornecimento de combustível, alegação negada pelo Governo do primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed.