Andrei, 48 anos, é um imigrante em situação de sem-abrigo em Portugal que hoje trabalha como cantoneiro no Porto, mas que pernoita no Abrigo do Porto da AMI, porque não consegue arranjar um quarto.
Em entrevista à agência Lusa, Andrei - nome fictício para proteção -, conta, em bom português, que chegou sozinho a Portugal pela primeira vez em 2009.
Andrei tinha o sonho de conseguir melhorar a sua vida emigrando, pois na Roménia é “muito difícil”, assume.
“Quando cheguei a Portugal, fui para Lisboa, onde arranjei trabalho e arrendei um quarto, numa casa partilhada. Ao fim de uns meses, recebi um amigo, vindo da Roménia e com ele acabei por mudar de emprego. O novo trabalho não correu como planeado e fiquei desempregado. Nessa altura, eu e o meu amigo fomos alojados num albergue em Lisboa”, recorda.
Andrei lamenta que aquele seu compatriota, com quem vivia em Lisboa, tenha começado a mudar de atitude ao ponto de o ter ameaçado e ter começado a persegui-lo.
Oito anos de emigração depois, e porque a sua situação em Portugal “não estava favorável”, Andrei decidiu regressar em 2017 à sua Roménia com a ajuda da igreja ortodoxa.
“Permaneci na Roménia por sete anos, sempre a trabalhar. Contudo, com a situação da pandemia de Covid-19, voltei a sentir a necessidade de sair do país, pois as dificuldades económicas começaram a complicar-se novamente”, descreve.
Volvidos sete anos na Roménia, Andrei regressa a Portugal, mas desta vez decide vir para a cidade do Porto.
"Cheguei ao Porto com 20 euros. Comecei a perguntar onde poderia comer, indicaram-me as carrinhas de apoio aos sem-abrigo. Orientaram-me para ir à Segurança Social e posteriormente encaminharam-me para o Abrigo do Porto, onde fiquei uns meses com o Rendimento Social de Inserção (RSI)”, recorda.
No Abrigo, Andrei conseguiu juntar algum dinheiro do seu trabalho para fazer uma formação de vigilante, obtendo o cartão do Ministério da Administração Interna (MAI).
Em Portugal, para exercer a profissão de vigilante de segurança privada, porteiro de segurança ou segurança em eventos é obrigatório ter o cartão do MAI válido, senão a atividade é considerada ilegal.
Em paralelo, Andrei foi encaminhado pelo Abrigo do Porto para realizar uma pequena formação de empregabilidade e logo de seguida integrar o mercado de trabalho novamente, onde se encontro hoje.
Andrei conseguiu, com a ajuda da equipa do Abrigo, integrar o mercado de trabalho e é atualmente cantoneiro numa empresa privada que trabalha para a autarquia, ajudando a manter as ruas, sarjetas e passeios da cidade do Porto limpas.
Quando questionado sobre onde se imagina daqui a cinco anos, Andrei diz que se vê a viver em Portugal.
“Quero manter-me em Portugal, pois não consigo viver na Roménia. Vou fazer novamente a formação de vigilante, para renovar o meu cartão MAI e assim, regressar ao trabalho na área da vigilância”.
Andrei é um dos 59 homens em situação de sem-abrigo que o Abrigo do Porto da Assistência Médica Internacional (AMI) apoiou em 2025.
O apoio a pessoas estrangeiras em situação de sem-abrigo no Abrigo do Porto entre 2020 e 2025 quase triplicou, subindo de 10,2% para 28,8% de utentes.
Dados da AMI indicam que as pessoas estrangeiras em situação de sem-abrigo em 2020 registadas no Abrigo do Porto representavam 10,3% dos utentes e que esse valor cresceu de forma contínua em 2021 (12,1%) e 2022 (17,5%), aumentando de forma mais expressiva em 2023 (23,5%), e atingindo o valor mais elevado em 2024, com 30%.
Dados apresentados no sítio oficial da Câmara do Porto indicam que em 2024 foram registadas 553 pessoas na condição de sem-abrigo, e em 2023 eram 597. Em 2022 eram 647 pessoas nessa situação.
Na análise da naturalidade, a maior parte não é do Porto, dividindo-se em 39,9% vindos de outros municípios, 8,2% dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, 1,6% de países da União Europeia e 3,4% de outros locais.