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Engenheiro alerta para risco de novos incêndios no Hospital de Ponta Delgada

LUSA
03-04-2025 15:48h

Um dos engenheiros responsáveis pelo relatório sobre as causas do incêndio no Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, alertou hoje para o riscos de novos incêndios na maior unidade de saúde dos Açores.

“Se não forem feitas selagens corta-fogo, se não forem instaladas portas corta-fogo, se o sistema de deteção de incêndios não for instalado, nós estamos a criar as condições para um novo incêndio. Só falta o fósforo, por que o material combustível está lá todo!”, advertiu João Mota Vieira na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ao incêndio no HDES, reunida em Ponta Delgada.

Segundo explicou aos deputados, as zonas onde estão instaladas a farmácia e o arquivo do HDES constituem um grande risco para a segurança daquela unidade de saúde, de acordo com os relatórios que já tinham sido feitos pelas autoridades, ainda antes do incêndio de 04 de maio, que danificou gravemente vários equipamentos do hospital.

Nesse sentido, advertiu que, “se houver um incêndio nessas zonas, os bombeiros de Ponta Delgada podem ter enorme dificuldade em combatê-lo porque estamos a falar das entranhas do hospital e, não havendo compartimentação corta-fogo, o incêndio vai-se propagar no interior” do edifício.

O técnico, que já tinha sido ouvido noutra comissão parlamentar na Assembleia Legislativa dos Açores sobre o mesmo assunto, não escondeu as suas críticas ao Governo Regional e à tutela da Saúde nos Açores, por entender que não geriram bem a situação após o incêndio.

“As pessoas estão sentadas em cima dum barril de pólvora. Estão a brincar com o fogo. Como é possível, num hospital desta dimensão, esta irresponsabilidade?”, questionou o engenheiro, acrescentando: “isto é quase um crime!”

Na sua opinião, as questões de segurança do HDES deixaram de ser uma prioridade para o executivo açoriano de coligação (PSD/CDS-PP/PPM) a partir do momento em que decidiu investir na compra de um hospital modular, opção que considera ter sido “precipitada”.

“A segurança não era uma prioridade. A prioridade passou a ser o modular e o edifício principal passou a ser secundário”, lamentou o engenheiro, que diz estar “muito preocupado” com a falta de condições de segurança no maior hospital dos Açores.

Para João Mota Vieira, terá existido, em 2024, uma relação entre o aumento do número de óbitos nas ilhas de São Miguel e de Santa Maria (mais uma centena do que em 2023) e a falta de investimentos no HDES.

“Dificilmente se pode negar uma ligação entre as decisões tomadas após o incêndio e este alarmante aumento da mortalidade em São Miguel e Santa Maria”, insistiu o engenheiro, adiantando que “a situação exige explicações técnicas, detalhadas, do Governo Regional dos Açores”.

Estas declarações suscitaram a crítica dos deputados do PSD na comissão de inquérito, que entendem que João Mota Vieira referiu matérias que extravasam a sua competência técnica.

Na quarta-feira, numa outra audição parlamentar, Marco Ávila, outros dos engenheiros que elaborou o relatório sobre as causas do incêndio no HDES, disse ter existido intervenção humana neste caso porque o sinal sonoro do sistema de alarme foi desligado por alguém.

“Esse sinal tinha sido inibido. A central, com os seus problemas, estava a funcionar, mas o sinal acústico estava inibido”, realçou aquele técnico, sublinhando que “a inibição” foi resultado de uma “intervenção propositada de alguém”.

O técnico defendeu que essa questão devia ser investigada pelas autoridades policiais.

De acordo com o relatório destes dois técnicos, o incêndio de 04 de maio, que destruiu parcialmente o HDES, obrigando à retirada de todos os doentes para outras unidades de saúde dos Açores, da Madeira e do continente, teve origem numa “bateria de condensadores de correção do fator de potência”, que foi tardiamente descoberto.

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